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Fernando Lucchesi
Construção da Memória


A ara matricial em que Fernando Lucchesi formulou o roteiro de sua obra, está imantada por uma força misteriosa em cuja trama pulsa e transita a seiva da memória.

Foi nutrindo-se nessas fontes, que o artista fecundou suas primeiras pinturas, sintéticas representações da paisagem mineira, construções singelas de lugares, nas quais a casa, a lua, o varal com lençóis, a árvore e o vento se reduziam a signos prensados em uma geometria delicada, preenchida por inúmeras camadas de cores superpostas.  A poesia matricial – a mesma que cingiu a obra de Paul Klee e de Nello Nuno - encaminhada no espaço construtivo, haveria de deflagrar, mais adiante, outras imagens, sempre ligadas a experiências da infância, a vivências de lugares e eventos marcados por uma rica visualidade.

Foi do espaço da casa, da praça adornada para as festas populares, do ventre generoso das igrejas, (lugares de troca, da iluminação afetiva, embora, também, do penumbrismo religioso) – que Lucchesi haveria de extrair as formas assumidas na sua nova pintura, logo desviada do partido construtivo-sintético e conduzida para o espaço dos excessos.

Esse espaço substancioso de Minas, apreendido e compreendido pelo agenciamento de uma vocação barroca, enfim despertada, viria a se tornar o eixo de uma obra construída com intensidade avassaladora. Esse espaço singular, a conter e reter em profusão de adornos e na repetição seriada de algumas formas, o sobressaltado horror ao vazio vem se reconstituindo recorrentemente na obra de Lucchesi, sob as mais variadas formas e enfoques. A pintura na tela saltou para os lençóis ajustados como estandartes ou cenários - reinvenções de altares e oratórios -, constituindo espaços particulares, propícios à contemplação e à meditação e, sobretudo, armados para a reflexão sobre a pintura mesma.

Os primeiros objetos em madeira, de pequenas dimensões, ainda aludiam, em sua construção simples, á geometria inicial, contudo, já formulando-se como espaço-morada de coisas em formação, cuja alma (o estado de poesia pressentido) era precedida pela forma, sinalizando o nascimento das coisas do mundo.

São essas coisas, os objetos resgatados do cotidiano, salvos do descarte compulsório, após o uso, que Lucchesi vai surpreender em sua reclusão trágica, marcados pela iminência da morte. O artista não os recupera para uma vida útil, mas transfigura-os e lhes dá um destino de utilidade simbólica, como elementos catalisadores de conhecimento. Cobertos de tinta, pousados nas prateleiras de um armário igualmente recoberto de pintura, essas coisas se tornam, pelo excesso sufocante, projeção de um sentimento de enfaro, de náusea existencial, que induzem à desistência de tudo, quando tudo o mais se anuncia como uma catástrofe inevitável.

Ao longo dos anos 80, a obra de Lucchesi – tanto a pintura como o objeto – estará impregnada deste sentido trágico, embora por vezes nela se abra uma fresta permitindo que a antiga poesia se manifeste. É por essa frincha induzida por um desejo de pouso e repouso, que o artista iluminará o novo espaço de sua criação; com o frescor de novas invenções, de abordagem afetuosa de uma cultura arcaica, extraída do inconsciente - daquela região em que as experiências herdadas dos ancestrais pulsam e gotejam.

Nesse cadinho, misturam-se os mistérios do passado, a Lucca dos avós italianos, projetada no imperturbável reino suburbano da família mineira, provado na impregnação religiosa do catolicismo devocional que celebra a esperança no transcurso de continuadas perdas. Spes se sobrepõe como um sentido de redenção.

Os antigos objetos tratados como vanitas dão lugar a uma criação mais lúdica, mais humorada (como a Casa de Calder do início dos anos 90). Reinventa objetos litúrgicos, para ritos poéticos, celebrações de vida; castiçais, palmas feitas de chapas de flandres recortadas, latão e cobre. Não mais a compulsão barroca, mas a claridade que lhe segue, na profusão modular de flores e folhagens, volutas torneadas em leveza e transparência.

Esses elementos de adorno, dentro da tradição secular, compõem um quadro novo que se liga mais à singeleza da cultura da Minas depois do ouro, caminhando na direção dos campos e das cidades incrustadas no grande sertão.

Lucchesi apreende esse sentido, quando recompõe os pequenos oratórios, sem necessidade de incluir a imagem do santo. São os recortes das folhas de metal, refazendo as franjas de papel, as flores e os castiçais, que concentram o sentido religioso e mágico desses objetos que se tornam imediatamente espaços de afeto.

Mas ao avançar com esses preciosos objetos para os espaços instalacionais, Lucchesi retoma, em outra instância, as construções mais densas. Com os mesmos elementos florais, agora trabalhados com chumbo e cobre, compõe objetos que se fecham em si, em uma forte reconstituição do mesmo sentido trágico que contaminara os armários. Nessas novas florações, tudo está tomado por um sentido de iminência, tudo é silêncio e fragor - os tremores e os rumores vindos das misteriosas instâncias da memória.

Márcio Sampaio



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